Criminosos trocam o tráfico de drogas pelo de comida na Venezuela

Lex Arias / Flickr

Mercado em Caracas, na Venezuela

Mercado em Caracas, na Venezuela

Jaime dedicava-se exclusivamente ao tráfico de drogas – até que, há dois anos, um cliente que trabalhava num supermercado lhe propôs trocar marijuana por farinha de milho pré-cozida.

Desde então, o traficante dedica-se ─ também ─ ao que chamam de bachaqueo, actividade ilegal cada vez mais comum na Venezuela e que consiste em revender produtos básicos que nem sempre são encontrados nas lojas e pelos quais milhões de venezuelanos passam horas na fila todos os dias.

“Ele propôs-me a troca e eu disse que sim. Quando dei por ela, tinha a casa cheia de produtos”, conta Jaime à BBC, sob condição de anonimato.

De acordo com a Lei de Preços Justos, que estabelece a regulação de preços de produtos de primeira necessidade no país, a revenda destes bens é um crime sujeito a pena de três a cinco anos de prisão.

A semana passada, o governo venezuelano reactivou a campanha para acabar com o contrabando, que, segundo as autoridades, é uma das principais causas da escassez de produtos básicos, parte de uma suposta “guerra económica contra o povo“.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou uma lei que procura fortalecer as medidas policiais, articuladas na chamada Operação de Libertação do Povo, para acabar com a revenda.

“Os revendedores são uma praga que está a prejudicar o povo”, afirmou Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional.

O presidente da câmara de Puerto Cabello, no centro do país, deu início a um programa de trabalho comunitário para a “reabilitação” dos revendedores presos, que enquanto limpam as ruas da cidade vestem um fato dor de laranja com a frase “sou um bachaquero e quero mudar”.

O ano passado, a palavra bachaqueo ─ e o verbo bachaquear ─ tornaram-se parte essencial do vocabulário e da vida dos venezuelanos.

“À quarta-feira, não posso trabalhar”, afirmou à reportagem um taxista. “É o dia em que me dedico ao bachaqueo“, diz, em tom de piada, referindo-se ao seu dia de compras.

Na Venezuela cada pessoa pode fazer as suas compras num dia da semana, dependendo do número do seu Bilhete de Identidade, e as compras são controladas pelas impressões digitais.

Desde que a escassez de produtos subsidiados aumentou na Venezuela, a revenda tornou-se uma actividade rentável também dentro do país.

Estes revendedores já não são apenas contrabandistas que levam produtos de um país para outro, mas também pessoas normais, que compram produtos no supermercado e os revendem no mercado negro, seja ao domicílio ou em mercados informais nas ruas.

Há quem revenda apenas o que sobra das suas compras, há quem venda fora do país e há quem tenha uma ampla rede de contactos, que lhes permite comprar grandes quantidades de produtos, que guardam e vendem quando há oportunidade.

Causa ou consequência da escassez

De acordo com os dados oficiais, em 65% dos supermercados venezuelanos não se encontram à venda os produtos de preço regulado.

A escassez tem atingido todas os sectores da economia venezuelana.

Desde confrontos nas ruas por falta de leite ou mais recentemente a falta de cerveja, até à cadeia de fast-food McDonald’s que ficou sem batata frita ou hotéis famosos sem papel higiénico, nos últimos meses sucederam-se as notícias de escassez de produtos de primeira necessidade no pais.

E até para ter sexo os venezuelanos já esperam na fila.

Muitos venezuelanos vêem assim os bachaqueros como um mal necessário, e compram-lhes o que não encontram nos supermercados, ou para evitar as filas.

Outros, no entanto, seguem a linha do governo e acusam os bachaqueros de ser a origem da escassez.

Os críticos do governo asseguram no entanto que a revenda, em vez de ser a causa, é uma consequência da escassez, que tem origem no controle dos preços, numa inflação galopante e na estagnação da produção nacional.

Há mais de um ano que a Venezuela tem a inflação mais alta do mundo: 70%, segundo os últimos dados oficiais.

E no último ano, a queda dos preços do petróleo ─ a maior fonte de receitas do país ─, limitou ainda mais as importações e piorou a escassez de produtos.

Para Jaime, os bachaqueros não são a causa do problema, nem fazem parte de nenhuma guerra económica contra o povo.

“Tenho cinco filhos, e agora que a escola está a começar, tenho que comprar o material escolar de cada um”, diz Jaime.

E o traficante quase já nem se vê como um criminoso.

“Sou apenas uma solução para os inconvenientes das filas”.

ZAP / BBC

1 COMENTÁRIO

  1. “operação libertação do povo” – Acabar com a revenda – Eis N. Maduro feito carpideira perante o povo… Depois de cuba (outros contornos) mais um revolucionário de esquerda radical a caír de maduro!

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